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Publicado Quar, 23 de Maio de 2018 Imprimir
Vamos na Paz

Benedito Said

No dia nove de junho (2018), a Secretaria Municipal de Educação lançará o projeto Paz no Lar, Paz na Escola, Paz na Vida, tendo subtítulo “Vamos na Paz”, o que remete às homilias e pregações cristãs. O lançamento prevê-se apoteótico, na Praça Pio XII (da Catedral de Montes Claros), acompanhado de séquito defensor da pacificação e o armistício coletivo.

A ideia nasceu dos números que incendeiam a violência na cidade e pelo mundo afora, em tempo de intimidação aos que desejam o diálogo ou lutam para que as desigualdades sejam menores, mitigando a dor itinerante de muitos. Pranto que põe a moer a alma daqueles que têm boa vontade.

Toda a equipe educacional, técnica, todos os servidores da educação e de outras secretarias municipais entraram em mobilização para esse grande evento, que foi incorporado pela administração.

Os números provocadores da violência são favoráveis à decadência humana. Mas não justificam a omissão daqueles que são da paz, amam o bem e cultivam a fé através de obras. Mão na massa, como oleiro a fazer do barro a sua obra de arte.

O aumento em mais de 10% em apenas um ano no número de pessoas vítimas de violência no Hospital Universitário Clemente de Faria mereceria análise mais profunda por parte dos cientistas que estudam causas sociológicas ou insanas no universo humano de cada dia. Os números de pessoas vítimas de violência entre 2016 e 2017 atendidas apenas naquele benéfico nosocômio (como dizem aqueles daquele tempo em que as mortes sempre ocorriam ao dar entrada no hospital; isso no antigamente) é de deixar o mais belicoso dos mortais de cabelo em pé, em estado de choque, mesmo sem corrente elétrica ou sendo careca,

O estado é mesmo de belicosidade. Bélico vem mesmo de bel, do latim belli ou bellun, que remete à guerra, combate. Alguns compostos do próprio latim remetem a bélico, e muitos outros introduzidos a partir do séc. XVI, na linguagem erudita, “belatriz” (belatrice ou belatrix – 1813-), como adjetivo de guerreira. No entanto, belicoso já existia antes (1572), formando beligerante em 1899, nascido da costela de belígero, que era usado já no mesmo ano de 1572, com exemplos em 1525. Houve, posteriormente, belipotente, (XVIII), e por fim “belona”, a guerra, cujos registros, por contradição, rementem ao ano de 1500. “Bellona” é deusa da guerra em latim, mãe também de “belonave e imbelle”, As palavras são mesmo muito doidas. E doídas para mostrar nossa impotência diante da violência que nós mesmos fabricamos.

Não é que de beligerante vem também gerente, genro, potente, unindo até mesmo os três. Mas também é matriz de belisário. Ao contrário de beleza e bondade, como se prediz e assim deveria ser, a etimologia dá conta de que belisário foi moeda de 50 reis no tempo do Ministro Belisário de Sousa, e mais antigamente Belisário foi general de Justiniano, o qual, depois de brilhantes vitórias, foi destituído de seus cargos e, cego, andava pelas ruas pedindo esmolas. Tanto assim que, em 1871, cunharam nos arquivos a palavra belisário para denominar os pobres, desventurados, infelizes. Pois não é que em tempos passados, belisário (belisária) denominava quantia que o jogador de sorte dava ao jogador que perdeu tudo, para que esse ainda pudesse apostar? (1871). Do mesmo bel (l) nasceu beliz, cujo significado dá conta de quem é “esperto, endiabrado, sagaz (XVI)”. Do árabe “iblís”, o diabo. Sai fora.

E o que faz a sociedade para reverter o mal (mau) que assola os dias e noites dos humanos mais suscetíveis e vulneráveis? Pouco. Preciso é mudar o conhecimento do terror, pois muito o entendem como benefício. Corrupção se combate com bom voto. Violência se combate com políticas públicas, posicionamento social e coletivo em favor de instrumentos que preservam a existência universal. Omissão, nesse caso, acaba sendo sinônimo de adesão à violência.

Na infância de muitos dos antigos, existia a frase latina (e portuguesa) que indicava o seguinte: “se vis pacem, para bellun” (se queres a paz, prepare a guerra). Cícero e Gegécio Renato disseram mais ou menos isso: “se quisermos desfrutar a paz, seja feita a guerra” ( Qua re si pace frui volumus, bellun geredum est). No entanto, a guerra pode ser com flores e amores. Ou não?

A sociedade pede paz, mas se exime nos tempos de hoje em assumir a guerra pela paz. Jovens são mortos. Famílias não assumem o papel de educar. Idosos descartáveis são. Há discriminação e trevas. Desacerto existencial fomentado por redes sociais vazias de nada, pois seus atores não medem consequências nem conhecem o amanhã diante de Deus. A omissão não cabe mais. Ou não?

Vê-se muita tecnologia, normalmente através de celulares cada vez mais interativos, mas nada de alma. Alma tem origem latina. A palavra original anima remetia à “essência imaterial do ser humano, espírito”. Do vocábulo surgiram vários outros, como almejar (séc. XVII), quando se quer alcançar objetivos nobres, normalmente em ascensão. Mas hierarquia está no cerne de todo complexo social, inclusive à margem da lei. Mas nesse caso, com certeza, outra palavra saída da costela da primeira é desalmado (séc. XVI). Pois está desse modelo. E assim ficará se os homens e mulheres de boa vontade não mostrarem que o mal (mau) deve ser devolvido à sua própria insignificância. Vamos na Paz. Se você é da Paz, compareça à Praça da Catedral no dia nove de junho, às oito da manhã.

Benedito Said é o atual Secretário de Educação do Município de Montes Claros

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